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Cinema

“Presos no Tempo” – O regresso de M. Night Shyamalan

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M. Night Shyamalan, realizador de renome conhecido por arriscar muito nas suas narrativas, está de volta com “Presos no Tempo”. Depois do enorme sucesso de “Split” em 2017, será este o regresso aos tempos áureos da sua carreira?

O thriller psicológico “Presos no Tempo” (“Old”, no seu título original) traz-nos um tipo de twist a que M. Night Shyamalan já nos tem vindo a habituar. O próprio título diz-nos tudo o que precisamos de saber. A premissa da mais recente iteração daquilo a que poderíamos chamar de SCU, ou Shyamalan Cinematic Universe, consiste num grupo de turistas que ficam presos numa praia paradisíaca e isolada, onde vão envelhecendo com uma rapidez inexplicável. Todos eles, de diferentes idades e oriundos de variados contextos, começam a envelhecer misteriosamente, a uma velocidade de um ano por cada meia hora que passa.

Guy e Prisca Cappa, o casal protagonista desempenhado por Gael García Bernal e Vicky Krieps, e que veio acompanhado pelos seus dois filhos Trent e Maddox para estas férias tropicais, está a passar por tempos conturbados no seu casamento. Do grupo de turistas fazem ainda parte um rapper chamado Mid-Sized Sedan (Aaron Pierre), um doutor assustador (Rufus Sewell), e também outro casal (Nikki Amuka-Bird e Ken Leung) cujas profissões enquanto terapista e enfermeiro, respetivamente, vão ser essenciais no desenvolvimento da narrativa.

Com um grande mistério no centro de toda a história – porque é que esta ilha está a afetar a idade destas pessoas? – este é um filme repleto de emoção e momentos comoventes, com algumas risadas, bastante body horror, consequências horripilantes e talvez mais violência do que seria de esperar de um filme para maiores de 13 anos.

Curiosidades de “Presos no Tempo”

É usual, no final da pré-produção de um filme, que a pessoa responsável pelo leme artístico (na maioria dos casos, o seu autor e/ou realizador), reúna a equipa técnica e o elenco de modo a mostrar algumas referências – visuais, musicais ou escritas – para que todos os envolvidos na criação da obra possam estar no mesmo comprimento de onda e percebam o tom e estilo daquilo em que vão trabalhar dia e noite durante os próximos meses. Shyamalan optou por fazer duas sessões de cinema – “Walkabout” (1971), de Nicolas Roeg, e “Piquenique em Hanging Rock” (1975), de Peter Weir – duas longas-metragens sobre a luta do Ser Humano contra a força imensurável da misteriosa Mãe Natureza.

“Presos no Tempo” é o retorno do M. Night Shyamalan à película, recurso ao qual não recorria desde 2010, ano em que estreou “O Último Airbender” num formato de 35mm. O realizador, que já não filmava um filme, no seu todo, fora da cidade norte-americana de Filadélfia desde 1992, decidiu passar parte da sua quarentena numa praia paradisíaca. Num ano em que todos nós ficámos praticamente limitados a quatro paredes, Shyamalan conseguiu passar 2 meses (entre Setembro e Novembro) de 2020 na República Dominicana a filmar uma adaptação de “Sandcastle”, uma novela gráfica de 2010 escrita por Oscar Lévy e ilustrada por Frederik Peeters. Segundo o próprio, o livro, que lhe foi oferecido pela sua filha no Dia do Pai, deu-lhe “a oportunidade para trabalhar sobre ansiedades que tinha relacionadas com a morte e o envelhecimento” ou como lidar com a idade cada vez mais avançada dos seus pais.

É um filme com algumas semelhanças com aquilo a que estamos neste momento a atravessar enquanto sociedade. Trata-se de um grupo de pessoas, isoladas do resto do mundo, a lidar com algo mortífero, com a incerteza do desconhecido, com o medo da infeção, do contágio e da morte. Passaram-se quase dois anos desde que a Pandemia teve o seu início, mas há dias em que parece que nós já estamos nesta luta há décadas, e que envelhecemos anos a fio enquanto vamos entrando e saindo do confinamento. Sem darmos conta, olhamos-nos ao espelho e vemos refletidos mais cabelos brancos do que aqueles que queríamos.

A (má) fama de M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan é perito em pegar em situações corriqueiras do nosso dia a dia e dar-lhes um ar sombrio, estranho, meio saído de um episódio de “Twilight Zone”. Mas um dos problemas associados aos filmes deste realizador, e à sua fama por criar obras com desenlaces inesperados, é que passamos mais tempo a tentar descodificar o mistério antes do final do filme e a tentar montar o puzzle que o realizador colocou à nossa frente, do que a estar com a devida atenção ao filme em si. Quando nos sentamos na sala de cinema ao ver um filme de Shyamalan já só conseguimos pensar no fabuloso mistério que esta nova obra do autor nos irá mostrar e a forma como este nos irá explicar tudo. “A culpa nem é nossa”, dizemos nós como forma de nos desculparmos. E é verdade. O realizador é que nos deixou mal-habituados. Quem não se lembra da famosa frase “I see dead people”, em “O Sexto Sentido”, que apenas consegue ser rivalizada pela “No, I am your father”, proferida por Darth Vader em “O Império Contra-Ataca”, o Episódio V da trilogia original da saga Star Wars. Depois de um plot twist desta categoria, é difícil não termos as mais altas expectativas quando nos referimos a M. Night Shyamalan.

É realmente um cineasta muito prolífico, cuja filmografia invejável pertence à categoria de “filmes de autor”, mas que por vezes dá alguns tiros ao lado no que toca a twists, mistérios e diálogos das suas longas-metragens. É compreensível. Não é fácil acertar sempre em cheio, tal como o fez em 1999, 2000 e 2002, com “O Sexto Sentido”, “O Protegido” e “Sinais”, respetivamente. Cada tiro, cada melro. Três grandes sucessos de bilheteira que tiveram também a aclamação da crítica e dos seus pares da Academia de cinema norte-americana.

Não podia deixar de mencionar que é também em 1999, o saudoso ano de estreia de “O Sexto Sentido”, que Shyamalan faz contribuições valiosas para dois guiões que se vieram depois a materializar em grandes clássicos de domingo à tarde –  “Ela é Demais” e “O Pequeno Stuart Little”. Foi, sem dúvida, um ano repleto de surpresas.

A verdade é que nem todas as obras da sua filmografia têm twists tão surpreendentes como o de “O Sexto Sentido”. Por vezes, apenas têm pequenos desenlaces que nos fazem repensar o filme e olhar para ele de uma nova perspetiva, mas nada que nos deixe arrebatados. Pensamos que o filme é uma coisa, mas a sua conclusão diz-nos que afinal estamos enganados, que é outra coisa completamente diferente. E isso nem sempre nos deixa satisfeitos. São filmes com ideias monumentais, mas que depois nem sempre são bem concretizadas.

Com a pressão para superar, ou pelo menos, igualar o sucesso dos seus últimos filmes, Shyamalan volta a fazer uso do twist final mas não consegue replicar o que atingira anteriormente. Seguiram-se “A Vila” (2004), “A Senhora da Água” (2006) e “O Acontecimento” (2008) – o início da queda do realizador. Numa tentativa de “mudança de ares”, em 2010 Shyamalan decide realizar a sua primeira adaptação (sendo “Presos no Tempo” a segunda), e estreia o blockbuster de verão “O Último Airbender”, uma adaptação da série de animação de sucesso do Nickelodeon. É novamente aniquilado pela crítica e cai ainda mais pelo precipício. Em 2013 apresenta-nos “Depois da Terra”, com a dupla pai-filho Will e Jaden Smith, filme que o continuou a afastar da sua fama inicial que o profetizava como o próximo Steven Spielberg, e que via nele um futuro promissor enquanto cineasta inovador no panorama norte-americano.

É em Jason Blum, produtor do enorme sucesso de terror de 2009, “Atividade Paranormal”, que M. Night Shyamalan vai encontrar a sua luz ao fundo do túnel, e com quem faz a “A Visita” (2015). Com um novo sucesso na sua algibeira, o realizador tem agora um novo ânimo e alento e presenteia-nos logo no ano seguinte com “Fragmentado“, a sequela de “O Protegido”. Fica de tal forma inspirado com este regresso aos tempos áureos da sua carreira, que em 2019 estreia “Glass”, o último filme desta trilogia que iniciara no virar do novo século.

M. Night Shyamalan é, sem dúvida, um artista talentoso, uma mente repleta de estórias interessantes e inovadoras. Mas todos sabemos que o mais difícil não é chegar ao topo, é permanecer nele. Espero que com “Presos no Tempo” ele se consiga agarrar com unhas e dentes ao cume pelo qual tem lutado com tanto afinco.

“Presos no Tempo” já está disponível nas salas de cinema portuguesas.

 

 

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