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Cinema

“O Último Duelo” – Feios, Porcos e Maus

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O Último Duelo é mais do que um filme de época com espadas armaduras e corpetes. Narra uma história do ponto de vista de quem a viveu e onde na ausência de lógica ou razão, a força é usada como desempate. Esta não é a história de dois guerreiros, mas a de uma sobrevivente.

 

Aos 83 anos, e 27 filmes depois, Riddley Scott tem um workflow para fazer os seus filmes tão aprimorado que se dá ao luxo de os “debitar” a belo prazer. Rodeado por uma equipa boa e consistente, tem claramente um processo criativo muito produtivo. Enquanto muitos aproveitariam o peso da idade para um merecido descanso, o realizador inglês lançará ainda este ano o muito esperado “A Casa de Gucci”. Mas em “The Last Duel”, mostra-nos Carrouges contra Le Gris.

 

Inspirado no livro homónimo de Eric Jager, a história é narrada três vezes sob diferentes pontos de vista. Mostra acontecimentos únicos que cada personagem viveu e como cada um interpretou os momentos em que se cruzaram. É muito interessante observar como cada uma destas pessoas, principalmente no caso dos homens, molda uma conversa e a ação para que fiquem “por cima” na moralidade. Por vezes o filme mostra-o de forma bastante subtil, mas na maior parte dos casos as diferenças são gritantes e mudam completamente o que pensamos das personagens à medida que o filme avança. Este é um conto de época sobre vingança, inveja, luxuria, combate e com cenas de violação que poderão afetar os mais suscetíveis.

 

Em cenário de Guerra dos Cem Anos e pós-Peste, acompanhamos uma França em perpétuo reboliço. Enquanto um protagonista se sente constantemente atacado na honra e na sorte (Carrouges) enquanto vê o ex-amigo sobir na hierarquia da corte sem ter feito por o merecer, o outro (Le Gris) tenta mostrar-se como um homem que tudo fez para ajudar um ex-companheiro de batalha e, no fim, só peca em cobiçar a mulher do póximo. 

 

No último terço conhecemos finalmente o ponto de vista de Marguerite, mulher de,Carrouge violada por Le Gris. O filme faz por deixar bem vincado que a sua versão é a verdade. Neste prisma, nenhum dos homens é visto com bons olhos, partilhando entre si a destruição desta bela alma, boa e trabalhadora. O marido mata-a ao longo dos anos e Le Gris destrói-a num dia. Decidida a não ficar calada, como tantas outras no seu tempo, inicia uma batalha pelos “tribunais” (fachadas que serviam apenas interesses) e termina presa numa luta entre dois homens menores que só querem saber da honra pessoal.

Julgamento por combate era uma prática que em 1386 já estava em grande desuso. O filme não o refere, mas este foi mesmo a última vez que tal foi permitido em França. A ideia por trás do processo é que Deus protege o inocente na batalha, ora, isto é altamente conveniente quando há falta de provas, DNA e uma sociedade igualitária. O pequeno grande detalhe neste divino processo, é que caso o marido perca o combate, Marguerite é considerada culpada de perjúrio e, por conseguinte, condenada a morrer na fogueira. Imaginem então lutar quando a balança está completamente contra vocês e a justiça não é cega, num regime em que são tratados como propriedade, em que juízo final nada depende da vossa performance e, mesmo que saíssem com vida, ficariam marcados aos olhos da sociedade… é esse o tamanho da força desta mulher que decidiu não ficar calada.

 

Apesar de ficar bastante vincada a ideia que Marguerite conta a verdade, há ainda assim alguns “sinais” que o filme dá (que eu interpretei) de que a verdade não é como descrita. Também a versão final pinta a honra e caracter da sua protagonista com lentes quase idílicas, sem falhas. Há inclusive dois momentos em que me dá ideia que ela quase planeia tudo isto (apesar do incrível enorme risco). O filme obriga-nos a ser detetives de um crime durante duas horas e meia, é muito provável que seja eu a pescar uma mensagem subliminar que só existiu nos meus olhos.

 

Um aspecto que não dependeu da minha interpretação foi a intenção de Riddley Scott e Dariusz Wolski em mostrar constantemente o modo como as mulheres presentes reagiam aos acontecimentos. É visível, em olhares de poucos frames, a repulsa, o desprezo, o medo e a empatia pelo que presenciavam.

 

O que também não dependeu de mim, muito pelo contrário, foi a decisão em mostrar a própria violação duas vezes. Isto é altamente debatível e, no meu prisma, errado. Podemos argumentar que é necessário mostrar de que modo uma experiência aparentemente igual, filmada de modo muito semelhante, é vivida de maneira desigual pelos intervenientes. Na versão de Le Gris, a câmara foca-se nele e apesar de Marguerite recusar os seus avanços, este interpreta como ela a fazer-se de “difícil”. Já do ponto de vista dela, mostra-nos as lagrimas e dor, com uma a câmara que raramente a abandona. Eu argumento que é algo extremamente desconfortável de observar uma vez, quanto mais duas. Num filme que nem sempre tem um carisma sério, até é dado a algumas tiradas cómicas, nesses dois momentos faz-nos desejar ter um comando para passar à frente. Teria sido melhor não mostrar a segunda versão e acreditarmos em Marguerite, não pelo que presenciamos, mas porque ela assim o disse. Teria sido uma mensagem mais forte por parte do filme dizer ao espectador que é devemos proteger as vítimas mesmo quando não presenciamos o ato. Decidimos acreditar em Marguerite porque ela tem praticamente tudo a perder e mesmo assim decide lutar até ao fim. Dito isto, percebo o peso da cena, e o facto de o termos presenciado duplamente influencia a maneira como vemos a luta de Marguerite pela verdade. É definitivamente um filme que nos faz pensar. 

O argumento esteve a cargo de Damon e Affleck, que repetem mais uma vez o duo vencedor. Nicole Holofcener completa o trio, inserindo uma perspetiva feminina no filme e sendo a grande responsável pelo arco de Marguerite. Matt Damon e Adam Driver são excelentes e apenas questiono os sotaques, que no caso de Damon tem, também ele, várias versões. Refrescante ver Ben Affleck num papel que lhe permite exprimir mais a capacidade como ator e ver Harriet Walter (a sogra) é ver alguém que rouba quase todas as cenas em que entra. Mas o filme é de Jodie Comer, não só pelos momentos extremamente difíceis de filmar, mas porque é super subtil nas suas três versões de Marguerite, sem nunca perder o norte da personagem. Uma última palavra para Alex Lawter, que interpreta Carlos VI (o Louco), e que nos saca gargalhadas nos momentos mais inoportunos e sérios. 

 

“O Último Duelo” não é um filme fácil, nem pretende ser, antes sim uma história com homens feios, porcos e maus e mulheres que têm de navegar em águas turvas. Os acontecimentos e falas das personagens nem sempre têm uma abordagem subtil, depositando as nuances num elenco fortíssimo, que por si justifica a visualização.

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Curiosidades sobre o filme:

 

– O filme foi rodado em França e na Irlanda. Um castelo da região de Dordonha, o Château de Beynac, localizado perto da aldeia de Beynac-et-Cazenac, foi usado como interior da propriedade Carrouges. O local foi ainda usado para filmar cenas dentro e fora do castelo Fontaine-Les Sorel, a casa da família de Marguerite. O Château de Fénelon em Sainte-Mondane, foi filmado como sendo o Forte de Belleme, onde o pai de Carrouges era o capitão. A cidade de Monpazier foi usada para as cenas passadas nas ruas de Paris. O Château Berzé-le-Châtel, uma fortaleza medieval construída em cima de uma capela com 1100 anos em Borgonha, tornou-se parte da propriedade de Carrouges.

 

– Algumas das cenas foram filmadas com seis câmaras em simultâneo, e todas filmadas com pelo menos quatro. 

 

– O duelo entre Carrouges e Le Gris ocorreu em Saint-Martin-des-Champs, em França, um antigo mosteiro remodelado para duelos que é referenciado com grande detalhe no livro de Eric Jager. O Campo de Carvalhos em Ballycurry Demesne, em Ashford, Irlanda, foi usado como mosteiro francês.

 

– Um total de oito trajes completos de armadura de duelo foram criados para o filme. Os substitutos e os duplos precisavam de versões idênticas às dos atores que mostravam os danos feitos nas armaduras conforme o duelo progredia.

 

– O supervisor de armas Tim Lewis projetou e criou mais de 50 escudos diferentes, milhares de peças de armamento, mais de 40 escudos e mais de 150 lanças.

 

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Um dinossauro no mundo das séries. Coleciona Blu-Rays, adora Legos, completa jogos a 100%, devora podcasts e ama tudo que envolva não sair de casa.

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