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It’s Okay Not to Be Okay – todos temos uma história única que nos torna quem somos

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Quando um drama nos faz refletir sobre as diferenças entre as pessoas, olhar para os traumas de uma perspetiva diferente e reconsiderar a maneira como lidamos com a saúde mental.

It’s Okay Not To Be Okay (IONTBO) é um drama sul-coreano de 2020 que foi bastante bem recebido e aplaudido pela forma eficaz como apresentou e abordou o tema da saúde mental, num olhar para o interior da natureza humana. A série tem uma temporada de 16 episódios e encontra-se disponível na Netflix.

A história apresenta-nos Seo Ye-Ji (Hwarang e Save Me) como Ko Moon-young, uma escritora considerada como uma personalidade antissocial; Kim Soo Hyun (My Love From the Star) como Moon Gang-tae, que trabalha como zelador em hospitais e clínicas psiquiátricas e guardião do seu irmão mais velho, Moon Sang-Tae, interpretado por Oh Jung-Se (When the Camellia Blooms), com desordem de espetro autista, em que não reconhece as emoções das pessoas à sua volta e com interesse em dinossauros e livros para crianças, especialmente os de Moon-young.

O enredo anda à volta destas três personagens, a relação entre si e a relação com as personagens secundárias. E em especial, as suas lutas diárias para ultrapassar os traumas que sofreram em crianças.

Ninguém deve ser tratado de maneira diferente por ser diferente

O drama apresenta várias doenças mentais, evidente na maioria do enredo, visto passar-se numa clínica psiquiátrica. O diretor da clínica tem uma maneira muito peculiar de tratamento, o staff é bastante dado aos pacientes, e há uma grande abertura a falar das doenças. Porém há sempre aquela pessoa que se rege à base do estereótipo para lidar com pessoas que sofram de algum problema mental. Na Coreia do Sul há um certo taboo em falar abertamente de doenças mentais e ir a psiquiatras, e penso que não é só lá, na minha opinião, também no nosso país, apesar de haver uma luta constante sobre discutir estes assuntos, no dia a dia pessoas com problemas como transtorno bipolar, esquizofrenia, autismo, stress pós-traumático, e até Alzheimer, continuam a ser excluídas e muitas vezes maltratadas. Está a mudar, mas o problema persiste. O que o drama desenvolve e carrega é que somos todos diferentes e ninguém por ser diferente merece maus-tratos, bullying, falta de apoio, falta de empatia, falta de amizades e falta de reconhecimento. Todos temos passados e experiências diferentes e é a partir daí que as nossas histórias se tornam diferentes e nos tornamos quem somos.

A cura não é espontânea, leva tempo.

O desenvolvimento das personagens foi bastante bem construído, quer o dos protagonistas, como o das personagens secundárias. De modo geral, em quase todos os dramas as personagens secundárias têm sempre papéis de relevância para os protagonistas e/ou a sua própria jornada para realizar e em IONTBO tal como os protagonistas também as personagens secundárias são levadas a enfrentar os seus traumas para os ultrapassarem. E é essa mensagem que o drama quer transmitir. As personagens começam como pessoas atormentadas e magoadas e ao longo dos episódios, nas interações umas com as outras vão aprendendo a confiar em si, nos outros, e começam a recuperar e a encontrar a sua paz.

Uma panóplia de emoções

Para quem segue o mundo dos k-drama já sabe que maioria dos romances, nunca seguem aquela ordem lógica, apesar de o resultado poder ser o esperado. E neste, isso também não falha. Comédia, romance, drama, um pouquinho de ação, mistério (em especial em volta da história de Moon-koung), todo um conjunto de elementos que os fãs deste mundo já estão habituados e em que IONTBO não falha. E plot twists, reviravoltas muitos bem colocadas. Sentimo-nos alegres, tristes, revoltados, enraivecidos ao longo da história. Onde o argumento pode falhar é no final, deu a imagem de ter sido muito acelerado, não que tenha sido feito à pressão, mas que aceleraram a forma como algumas personagens chegaram às suas resoluções. Mas ficção, é ficção, e por mais humano e realista que se tente ser aquele toque mágico tem de aparecer.

Não posso deixar ainda de referir o vestuário de Moon-koung, que é lindo. O cenário excelente, a banda sonora como sempre não falha, as interpretações de todos os atores são espetaculares. Para quem viu Hi Bye Mama!, voltamos a ver a atriz Kim Mi-Kyung a interpretar uma mãe espetacular (já é comum vê-la como uma mãe que não se consegue não adorar). E ainda a sincronização entre desenhos, contos e a história dá um ar maravilhoso.

“Todas as pessoas são boas e más. Todos vivemos com ambas as características.”

Eu adorei o drama, mas para conseguir falar sobre ele, não sendo a minha área de formação, decidi recomendá-lo a uma amiga psicóloga (que nunca tinha visto k-dramas) para que ela me indicasse se as interpretações e a abordagem às doenças realmente estavam on point como me pareceu e como a internet também referia. Posso dizer que ela ficou viciada, não só na trama e na combinação dos dois protagonistas, mas em tudo à volta do drama. E afirmou que a representação do autismo, do transtorno bipolar, as técnicas usadas para acalmar Sang-tae estavam muito bons. Pelo que posso assim dizer, a meu ver, o drama conseguiu o que muitas produções ocidentais não conseguem, dar o devido valor a quem é diferente e a quem faz de tudo para o bem-estar dessas pessoas. O drama tem falas lindas e não posso deixar aqui todas, mas vou terminar com algo que se resume a It’s Okay Not to Be Okay.

“Não cometas o mesmo erro que eu ao tentar correr quando não consegues andar. Quando estiveres cansado, descansa um pouco. Quando estiveres triste, vai em frente e chora. Não há problema em fazer uma pausa. Então, um dia, certamente chegará o dia em que serás capaz de correr novamente.”

Mais conhecida como Vicky, é bioantropóloga com um enorme gosto por ossos, esqueletos e evolução humana. Tem uma paixão desde que nasceu pela cultura popular, de literatura ao cinema. Uma geek assumida e orgulhosa! O seu hobby preferido atualmente é perder-se na cultura popular asiática, especialmente nos anime e K-dramas.